segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Satélite Amazonia-1 será lançado em 2020 a bordo do indiano PSLV

Redação
Shirley Marciano
10 de dezembro de 2018

Adenílson Roberto da Silva  - Crédito: Shirley Marciano

O satélite Amazonia-1, que é baseado na Plataforma Multimissão, será lançado em 2020, embora ele já esteja em testes finais no Laboratório de Integração e Testes (LIT), no Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). 

O processo de licitação finalizou no último dia 07/12, sexta-feira. A empresa vencedora da concorrência internacional, sob critério de melhor preço, é a americana SpaceFlight. O veículo lançador será o indiano Polar Satellite Launch Vehicle (PSLV), que realizará o lançamento a partir de um centro de lançamento da Índia.

O gerente do Amazonia-1, Adenílson Silva, nos confirmou pela manhã de hoje (10/12) que nesta semana será assinado o contrato entre as partes.
Este satélite e sua plataforma são inteiramente brasileiros e foram desenvolvidos pelo INPE. 

Saiba mais aqui.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Os pequenos passos do astronauta Marcos Pontes

Revista Piauí
6 de dezembro de 2018
Flávia Tavares

Ilustração: Paula Cardoso

Com a pontualidade de um foguete em contagem regressiva para o lançamento, o astronauta Marcos Pontes iniciou, às 9h30 desta quinta-feira, sua apresentação a 43 convidados da comunidade científica brasileira que participaram do encontro “Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável: Debate para o Futuro”. A reunião em Brasília foi a primeira entre o futuro ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e os representantes do setor. O astronauta Marcos Pontes vestia o macacão azul bordado com a bandeira brasileira no peito que não deixa dúvidas de que ele é o astronauta Marcos Pontes. Nos pés, um deslocado sapato social marrom. No alto-falante, um fundo musical genérico, de acordes melosos. E na tela slides de uma infância feliz em Bauru, da adolescência embalada pelo violão, da entrada na carreira militar. O astronauta Marcos Pontes estava emocionado. Quando surgiu a imagem no telão de sua viagem ao espaço, ele falou do apoio que sempre recebeu de sua mãe, dona Zuleika. Os cientistas, pragmáticos por ofício e essência, entreolhavam-se. Sem trocar palavra, por generosidade ou constrangimento, decidiram aplaudir e acolher o astronauta Marcos Pontes.

A palestra motivacional, pontilhada por sentenças como “Nós precisamos acreditar” e “todos falavam que eu não ia conseguir”, durou uma hora. Os cientistas estavam ansiosos pela próxima etapa da programação, quando, em painéis de discussão, finalmente poderiam expor suas preocupações e propostas. O encontro foi combinado por iniciativa de amigos de Pontes, que encarregaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, de organizar o evento. A coisa tomou uma proporção astronômica. Muita gente de setores relevantes teria que se virar para tratar de temas complexos, num tempo escasso, numa salinha do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, onde a equipe de transição de Jair Bolsonaro opera. Pontes frustrou a plateia. Era chamado para outra missão. Bolsonaro o esperava para uma reunião pré-ministerial.

Os cientistas passaram a falar sobre si para si mesmos. Diretores de toda espécie de sigla importante da área estavam lá: a presidente de honra da SBPC, Helena Nader; o presidente da Academia Brasileira de Ciências, a ABC, Luiz Davidovich; o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, Mario Neto Borges; o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, Jorge Guimarães (o presidente da entidade); entre dezenas de outros. Gente que se fala com constância. Acostumada a debater entre si. O futuro ministro não estava.

Ele disse que voltaria em meia hora. Voltou em uma hora e meia. Trouxe consigo Jair Bolsonaro. Havia uma tensão na sala porque, pela manhã, o site da revista Crusoé noticiara que a Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, sairia da alçada do ministério e seria transferida para uma diretoria sob Joaquim Levy, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. A comunidade científica não quer isso. Bolsonaro falou rapidamente sobre sua paixão por ciência e seu fracasso ao tentar ingressar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA. Ele é ruim de Física. Mas costuma apontar os progressos que viriam da exploração do nióbio e do grafeno, um novo material que se obtém a partir do grafite. Decretou que o desenvolvimento do país está nas mãos daquela plateia, dos cientistas brasileiros. E disse que quem manda nessa área a partir de janeiro, com total autonomia, é Pontes. O futuro ministro aproveitou para anunciar que o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, o Inmetro, e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, devem sair do guarda-chuva do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, que será extinto, e ir para o seu. Os pragmáticos cientistas voltaram a sorrir – não o suficiente para estampar sua alegria na foto que tiraram com Bolsonaro e o futuro ministro.

Bolsonaro deixou a sala e Pontes passou, agora sim, a ouvir as breves exposições dos convidados. Mas já passava das 13 horas. Os cientistas almoçaram num restaurante no térreo. Pontes não os acompanhou. Na volta do recesso, já estava sem seu macacão azul. Vestiu o figurino de ministro e meteu-se num terno e gravata. À tarde, a reunião foi mais proveitosa. Pontes foi apresentado um a um aos notórios e notáveis da área que comandará. Humildemente, pediu conselhos, anotou o que ouviu, incorporou as demandas. Quando um dos participantes sugeriu melhorias na articulação entre as agências do setor, para evitar duplicidades de programas, Pontes logo mimetizou: “Precisamos melhorar a articulação entre as agências”. Esse foi o tom da conversa, com ênfase na ineficiência pública que atravanca a inovação no país.

Esse foi o primeiro encontro de peso que Pontes teve com representantes da comunidade que vai liderar a partir de janeiro. Até aqui, desde seu anúncio como futuro ministro, ele conduziu uma agenda mais de astronauta Marcos Pontes. A plataforma eleita para comunicar sua rotina é o Facebook. A página Astronauta Marcos Pontes exibe, lá no alto, para seus 104 mil seguidores, uma foto de Pontes com Bolsonaro, uma imagem de um Pontes bem mais jovem e magro com paramentos de astronauta e uma citação em destaque: “Vou continuar a fazer com o mesmo nível de entusiasmo e dedicação”. Não está claro fazer o quê. Por meio da página, Pontes informa seus fãs, e agora os cidadãos brasileiros, de sua vida pública.

O astronauta Marcos Pontes conta em suas palestras, em seu livro, em seus posts, em seu site, que sempre sonhou em ser piloto e em ir para o espaço. E que, por ser de uma família pobre do interior de São Paulo, era constantemente desmotivado a tentar (menos por dona Zuleika, claro). Direcionou seus estudos para prestar o vestibular da Academia da Força Aérea. Passou. Com a carreira militar encaminhada, prestou também o vestibular do ITA. Passou. Tornou-se piloto de testes da Força Aérea Brasileira. Fez mestrado em Engenharia de Sistemas nos Estados Unidos. Em 1998, soube pelo irmão que a Agência Espacial Brasileira selecionaria o primeiro astronauta brasileiro. Escolhido, ele completou o curso na National Aeronautics and Space Administration, a Nasa, em 2000, com expectativa de viajar para o espaço em 2001.

O Brasil descumpriu parte do acordo que tinha com os americanos e o brasileiro só pôde zarpar em 2005, em parceria com os russos. Sua missão, ele descreve, era executar a “manutenção dos sistemas da Estação Espacial Internacional, a ISS e da nave russa Soyuz; realizar as pesquisas enviadas pelo Brasil; realizar as pesquisas em andamento na ISS naquele momento (mais de 80); e divulgar o programa espacial brasileiro”. O astronauta Marcos Pontes se ressente do fato de que a imprensa brasileira questionou a qualidade das pesquisas que ele desenvolveu e os gastos de 10 milhões de dólares para que ele pudesse participar da viagem. Também se magoa com as críticas que recebeu por, ao voltar do espaço, sair da carreira pública e partir para as palestras motivacionais e as propagandas de travesseiro.

No dia 31 de outubro, quando Bolsonaro confirmou sua indicação para o cargo, ele postou: “TECNOLOGIA OFICIAL Apesar de veiculado pela mídia a possibilidade de ser indicado como ministro, ainda aguardava o anúncio oficial que veio pelo #twitter (que é uma ferramenta de tecnologia)”. Mas uma semana antes ele já dava dicas do que viria. No dia 23, ao reforçar seu apoio a Bolsonaro, ele agradeceu seus seguidores pelo “incentivo para a próxima missão no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Missão dada é missão cumprida!”. Como de costume, despediu-se com “Abraços espaciais, Astronauta Marcos Pontes”. Sempre que dá, ou mesmo quando não dá, ele acrescenta tags marcando a Nasa em suas postagens. E a tag #Único.

Em sua primeira semana de futuro ministro, seus compromissos incluíram uma palestra na IV semana da Construção Civil no Instituto Federal do Amazonas; uma palestra no 1º Congresso Aeroespacial Brasileiro na UniAmérica, em Foz do Iguaçu; uma participação na celebração dos 50 Anos da Receita Federal do Brasil em Vitória; e uma passagem pela Feira de Tecnologia e Inovação, em Francisco Beltrão – onde foi agraciado com uma melancia com seu rosto esculpido. “Precisamos unir forças de todos os cidadãos de bem sejam eles civis ou militares da iniciativa privada ou pública em prol de uma só causa: o desenvolvimento e reconhecimento ‘MADE IN BRAZIL’ de nossa tecnologia, ciência e inovação no Brasil e no exterior. Abraços Espaciais e fiquem com Deus”, ele postou.

Ele participou ainda do “bate-papo” Saber, sonhar e realizar, promovido pelo Sebrae de Cuiabá. Da 1ª Feira do Polo Digital de Manaus, com a palestra “É possível, como transformar seus sonhos em realidade” e onde aproveitou para alimentar um peixe boi de três meses de vida. De um almoço num evento de tecnologia de uma empresa em São Paulo. E da formatura na Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá – de lá, ele deu um pulo a Aparecida, com Bolsonaro, numa visita à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. A exceção na agenda mundana do astronauta Marcos Pontes foi o encontro, no dia 27, com William Popp, encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos que está fazendo as vezes de embaixador. E a reunião desta quinta-feira.

Procurado pela piauí para falar da apresentação à comunidade científica, a assessoria do futuro ministro disse que ele ainda não está dando entrevistas, por estar “esperando ter mais coisas pra contar”.

Os cientistas deixaram o encontro divididos. Consideram promissora a disposição do futuro ministro em ouvir, aprender e absorver, coisa rara entre os que chegam a essa posição. Mas temem que ele não tenha o desprendimento, as habilidades políticas e a capacidade de gestão para superar os entraves burocráticos de um país que teima em dificultar a inovação e a produção científica. E o astronauta Marcos Pontes, pelo tom de suas palestras e do discurso de introdução no encontro com os cientistas, parece ter mais satisfação com o som de seus próprios passos do que com os da humanidade.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os 30 anos do programa espacial Brasil-China

Estadão
6 de dezembro de 2018
Pedro Henrique Batista Barbosa*, O Estado de S.Paulo




Em tempos de escalada da guerra comercial e retórica entre China e EUA e de preocupações com seus possíveis efeitos para a economia mundial, e brasileira, uma data e um anúncio importantes passaram despercebidos. Brasil e China anunciaram recentemente o lançamento do sexto satélite binacional de sensoriamento remoto, num momento especial: completam-se em 2018 os 30 anos do programa espacial CBERS (sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres). Em acordo assinado na visita do presidente José Sarney à China, em 1988, ambos os países deram início a uma parceria espacial inédita e pioneira entre nações em desenvolvimento, que já trouxe benefícios à sociedade brasileira.



Nos anos 1980, Brasil e China buscavam unir esforços para dar um impulso em seus programas espaciais, ambos iniciados por volta da década de 60. Como potências emergentes, viam na cooperação uma oportunidade de dinamizar um setor estrategicamente importante, cuja concepção dual permitia benefícios às indústrias civil e militar. Unindo recursos financeiros e tecnológicos, buscavam romper o bloqueio das nações desenvolvidas à transferência de tecnologias avançadas.


É bem verdade que de 1988 para cá os programas espaciais dos dois países evoluíram em ritmos diferentes. A China desenvolveu os modernos veículos lançadores Longa Marcha, enviou diversos satélites e missões tripuladas ao espaço e criou um sistema de posicionamento, o Beidou, que já compete com o norte-americano GPS. Seus planos não param por aí. O país inaugurará estação espacial própria em 2022 e pretende enviar um homem à Lua e uma sonda a Marte nos próximos anos.

O Brasil, por sua vez, enfrentou alguns percalços no seu programa espacial, embora tenha visto o primeiro brasileiro, Marcos Pontes, ir ao espaço. Entre restrições orçamentárias e crises financeiras, o País teve seus planos espaciais cada vez mais adiados. Em 2003 o Brasil viu seu projeto de veículo lançador de satélites literalmente ir pelos ares. Um acidente na base de lançamentos de Alcântara tirou a vida de 21 cientistas brasileiros envolvidos no projeto e impôs duros obstáculos à continuidade do nosso programa espacial.

A notícia do lançamento do CBERS-4A vem em bom momento. Após um malsucedido acordo espacial com a Ucrânia, que desde 2003 consumiu R$ 500 milhões e não lançou nenhum foguete, o Brasil rompeu recentemente o tratado e busca agora firmar um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os EUA, que permitirá o uso do centro de Alcântara e fornecerá recursos para revitalizar o programa espacial brasileiro. A base, situada a apenas 250 km ao sul da Linha do Equador, propicia uma economia de combustível de cerca de 30% nos lançamentos. Seu aluguel já foi cobiçado por vários países. 

Ao longo desses 30 anos, o CBERS foi uma exceção no oscilante programa espacial brasileiro. Nesse tempo foram desenvolvidos cinco satélites de sensoriamento remoto, CBERS-1 (1999), CBERS-2 (2003), CBERS-2B (2007) e CBERS-4 (2014) – o CBERS-3 não teve lançamento bem-sucedido, em 2013. O próximo está programado para ser lançado em 2019. O CBERS-4A não só substituirá o último satélite em operação, como também dará continuidade à produção de materiais vitais para os setores agrícola e ambiental brasileiros. Historicamente, mais de 20 mil órgãos brasileiros receberam imagens gratuitamente. O CBERS ajudou instituições como Incra, Embrapa, Petrobrás, IBGE, Ibama e ANA no monitoramento de desmatamentos e queimadas na Amazônia, no controle do nível de reservatórios e expansão urbana e agrícola.

Os benefícios do programa bilateral estenderam-se também a outros países. Com o CBERS o Brasil tornou-se um dos maiores distribuidores de imagens de satélite do mundo. Mais de 2 milhões de imagens foram fornecidas gratuitamente a 20 nações em desenvolvimento na América do Sul, na África e no Sudeste Asiático.

O CBERS ajudou também na continuidade das atividades da cadeia industrial brasileira, assim como na agregação de valor à produção nacional. O programa, por exemplo, permitiu ao Brasil figurar no seleto grupo de países capazes de projetar e fabricar câmeras de alta sensibilidade com qualificação espacial, como as nacionais MUX e WFI. Inovações como essas fazem o CBERS ser considerado um dos principais programas de sensoriamento do mundo, juntamente com o norte-americano Landsat, o francês Spot e o indiano ResourceSat.

Na esteira do sucesso do CBERS, outras iniciativas começaram a surgir. Em 2014 foi inaugurado o Laboratório Sino-Brasileiro de Clima Espacial, em São José dos Campos. Com o novo centro os países passaram a estudar juntos fenômenos que afetam, por exemplo, redes elétricas, telecomunicações e sinais GPS.

Em outra iniciativa inédita na era espacial, Brasil e China assinaram em 2013 o Plano Decenal Espacial, estendendo a cooperação bilateral a áreas prioritárias para a indústria aeroespacial brasileira, como serviços de lançamento e treinamento de pessoal. Além da expansão do CBERS, o plano prevê ainda o desenvolvimento conjunto de um satélite meteorológico geoestacionário, a ser administrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No seu aniversário de 30 anos, o CBERS segue como principal marca da relação científico-tecnológica bilateral. Ao longo desse tempo, o programa tornou-se marco de cooperação em alta tecnologia entre países em desenvolvimento. Comemorar seus 30 anos é oportunidade não só para relembrar as conquistas do passado, mas também assegurar que, nas próximas três décadas, ele se mantenha em seus moldes atuais, cooperativos, e não comerciais, trazendo novos benefícios às sociedades brasileira, chinesa e mundial.

*Diplomata, é doutorando em políticas internacionais na Universidade do Povo da China (Renmin University)


As opiniões expressas pelo autor são pessoais.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Avançam as atividades para lançamento do satélite CBERS-4A

INPE
4 de dezembro de 2018

Satélite CBERS-4A durante testes elétricos no LIT/INPE
Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (CAST) concluíram com êxito, na última semana de novembro, testes elétricos do CBERS-4A. A fase de montagem, integração e testes (AIT, na sigla em inglês) do satélite é feita no Brasil, nas instalações do INPE, em São José dos Campos (SP).

O satélite sino-brasileiro será transportado em maio para a China, para lançamento no segundo semestre de 2019.

Também foram realizados testes de simulação de voo, para ensaio da sequência de eventos que ocorrem durante o lançamento e primeiras orbitas após a injeção do satélite em sua órbita. Estes testes precedem os ensaios ambientais (que simulam as condições no espaço), programados para o período de dezembro de 2018 a maio de 2019.

Os ensaios do CBERS-4A representam um marco para o Laboratório de Integração e Testes (LIT) do INPE que, pela primeira vez, realiza simultaneamente atividades de AIT de dois satélites do programa espacial brasileiro. Ao mesmo tempo em que acontecem os testes do CBERS-4A, são desenvolvidos as ações necessárias para o lançamento do primeiro satélite de sensoriamento remoto totalmente nacional, o Amazonia-1.

Cooperação

O Programa CBERS (sigla para China-Brazil Earth Resources Satellite; em português, Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) completou 30 anos de cooperação entre o Brasil e a China para o desenvolvimento, fabricação, lançamento e operação de satélites de sensoriamento remoto para observação da Terra.

Já foram lançados os satélites CBERS-1, em 1999; CBERS-2, em 2003; CBERS-2B, em 2007; CBERS-3, em 2013; e CBERS-4, em 2014, este em operação.

O acordo de cooperação assinado com a China, em 1988, é um importante indutor da inovação no parque industrial brasileiro, que se moderniza para atender aos desafios do programa espacial. A política industrial adotada pelo INPE permite a qualificação de fornecedores e contratação de serviços, partes, equipamentos e subsistemas junto a empresas nacionais.

Além do conhecimento tecnológico, o CBERS traz benefícios sociais e econômicos, pois o sensoriamento remoto por satélites é uma ferramenta de baixo custo para o monitoramento de países de dimensões continentais como o Brasil e a China.

Bolsonaro prevê fim de aposentadoria integral de servidor antes dos 65 anos

Gaúcha ZH
4 de novembro de 2018

EVARISTO SA / AFP

A proposta de reforma da Previdência elaborada pela equipe de Jair Bolsonaro prevê que servidores públicos que ingressaram na carreira antes de 2003 só poderão se aposentar com integralidade (recebendo o último salário) e paridade (tendo direito ao mesmo reajuste salarial que os ativos) se atingirem idade mínima de 65 anos. Ainda não se sabe se haverá diferença de idade para homens e mulheres. As informações são do jornal O Globo.

A regra já fazia parte da reforma apresentada por Michel Temer ao Congresso, mas enfrentou forte resistência do funcionalismo. No entanto, o futuro governo avalia que é preciso combater privilégios, mantendo mais igualitários os regimes dos setores público e privado, para ganhar apoio à reforma.

A medida, entretanto, não impactaria quem está na ativa e já atingiu os requisitos mínimos para se aposentar, pois já têm direitos adquiridos.

Ao mesmo tempo, a proposta prevê a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo e a antecipação do benefício para idosos e deficientes da baixa renda que não contribuem para o regime previdenciário e são enquadrados na Lei Orgânica de Assistência Social (Loas). Hoje, esse grupo tem direito a um salário mínimo quando atinge 65 anos de idade. A ideia é que a partir de 55 anos esses beneficiários já possam ter alguma renda. 

O futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou na segunda-feira (3) que a ideia do futuro presidente é fazer a reforma da Previdência sem correria. Segundo ele, Bolsonaro não quer um remendo, mas um modelo que dure 30 anos.

— O governo não tem açodamento — disse o ministro, durante entrevista coletiva no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, onde a equipe de transição se reúne.

Ele disse que a meta é aprovar a reforma em 2019, mas admitiu que será preciso convencer tanto o novo Congresso quanto a sociedade, e que isso leva tempo:

— A tramitação congressual vai estar pari passu com o convencimento dos parlamentares e da sociedade. Para conseguir isso, não dá para ser no afogadilho. Queremos aprovar no primeiro ano, mas temos que reconhecer que nossa dificuldade passa por um Congresso que vem bastante renovado.

Os técnicos que estão trabalhando no desenho da reforma pretendem fechar o texto ainda em janeiro para apresentá-lo ao Congresso na abertura do ano legislativo.

Matemática é coisa de meninas

Veja
30 de novembro de 2018
Maria Clara Vieira

A única da classe - Lilah: sua iniciativa quer ajudar a mudar situações desagradáveis como as que experimentou na faculdade de física (Pablo Saborido/Divulgação)
Amalie Emmy Noether nasceu em 1882 em uma família judia no Estado da Baviera, na Alemanha. Apaixonada por números, aos 18 anos ela cismou de ingressar na faculdade de matemática — que não aceitava mulheres. Graças à influência do pai, professor da Universidade de Erlangen-Nuremberg, a jovem conseguiu entrar e se tornar a segunda mulher da história a obter um diploma na disciplina. Depois de formada, chegou a adotar um pseudônimo masculino em alguns trabalhos. Emmy viria a ser uma das cientistas mais renomadas de seu tempo. Albert Einstein usou suas pesquisas para formular parte da teoria da relatividade e a considerava “o maior gênio matemático desde que as mulheres conquistaram acesso à educação superior”.

Mais de um século depois, outra estudante — esta de física —, a brasiliense Lilah Fialho, 26 anos, demorou a saber que as teorias que aprendia e admirava eram criação de uma mulher. “Quase todos os autores do meu curso eram homens. Só me dei conta quando um professor usou o pronome ‘ela’ para se referir a E. Noether”, diz. Desde então, a matemática alemã se tornou sua maior inspiração, primeiro para dar aulas, depois para montar, com a também física Érica Oliveira, o projeto A Menina que Calculava, aplicado a todas as séries em escolas públicas do Distrito Federal. O objetivo é romper o “complexo de inferioridade” das meninas no que se refere às ciências exatas.

Fundado em 2017, gratuito e tocado por voluntárias, o projeto oferece monitoria de matemática, física e química. Em três semestres, já atendeu mais de 300 alunas em catorze escolas, envolvendo mais de 100 monitoras, em geral estudantes de graduação na área de exatas. Lilah deixou de dar aulas e passou a ser administradora do A Menina que Calculava. É ela quem recebe inscrições de monitoras e escolas, divulga a iniciativa e coordena agendas. “A Lilah é extremamente organizada, focada e pragmática. Também põe a mão na massa no que for preciso. Brinco que quero ser como ela quando crescer”, elogia Érica.

Diretores e professores de escolas onde o projeto é aplicado afirmam que seus efeitos são visíveis, tanto na sala de aula quanto nos boletins. Gabrielle Gomes, vice-diretora da Escola Classe 407, na Asa Norte de Brasília, relata que, quando entra na sala para avisar as alunas inscritas de que a monitoria vai começar, é recebida com grande empolgação. “Elas estão pegando gosto pela matéria”, diz. Ana Paula Prudente, professora de uma das turmas atendidas, comemora os resultados: “Percebo que as meninas se sentem especiais. Voltam para a sala muito motivadas, e isso se reflete nas suas notas”.

O nome da iniciativa, dado por Lilah, vem do livro O Homem que Calculava, de Malba Tahan, clássico infantojuvenil sobre um calculista persa que apresenta problemas e curiosidades da matemática. “Foi um dos primeiros livros que li sobre o assunto e me marcou, porque não entendi nada”, conta Lilah. Nascida e criada no Distrito Federal, ela é filha de pedagogos e demorou para se render à vocação para as exatas. “Na hora de me preparar para o vestibular, optei pela física, porque queria lidar com números relacionados à natureza. Meus professores me desencorajavam, diziam que eu não teria futuro”, lembra Lilah, que faz doutorado na matéria e demonstra grande prazer em se debruçar sobre problemas quase insolúveis. “Sabe aquelas contas imensas que raramente serão necessárias na vida real? Adoro”, afirma.

Lilah sempre sentiu na pele o desafio de ser mulher em uma área predominantemente masculina. Quando entrou na faculdade, havia oito meninas em uma turma de trinta alunos. “Aprendi a relevar brincadeiras inconvenientes, em nome da boa convivência. Muitas vezes eu era a única menina da classe, o que é muito desconfortável”, diz. “Sempre confiei no meu taco quando se tratava de matemática. Mas em diversas ocasiões fiquei insegura ao demonstrar meus cálculos ou resolver questões na frente da turma. Uma amiga, nesses momentos, teria feito toda a diferença”, avalia. Ela mesma nunca sofreu assédio, mas conta que ouviu relatos de várias colegas sobre problemas desse tipo. “Uma conhecida quase desistiu do doutorado porque foi assediada pelo orientador e não sabia a quem recorrer”, lembra.

Embora 60% das graduações em 2015 no Brasil tenham sido de mulheres, nos cursos relacionados às ciências exatas e biológicas (farmácia, engenharias, biologia, matemática, medicina, física, química e ciência da computação, entre outros) a participação feminina não passa de 41% — e o índice permanece imutável desde 2000. Existem até pesquisas sobre a timidez feminina em relação a equações e números. Uma delas, publicada na revista Science, apresentava a garotas pequenas a frase “alguém que eu conheço é extremamente inteligente e capaz de resolver problemas mais rápido e melhor do que todo mundo”. Na faixa inferior de idade, até 5 anos, a possibilidade de relacionar a definição a um homem ou a uma mulher foi a mesma. A partir dos 7 anos, porém, detectou-se probabilidade 30% menor de associar a tal “pessoa brilhante” a uma mulher.

O projeto A Menina que Calculava é, para Lilah, um passo na direção de mudar essa situação, ao dar confiança às garotas e estimular sua iniciativa desde cedo. “É gratificante ver o ‘eureca’ nos olhos delas quando chegam à solução de um problema”, diz. “Nossa meta não é convencer as alunas a seguir carreira na área de exatas. Queremos principalmente que se sintam seguras para conferir e questionar o troco da padaria, por exemplo.” Junto com as voluntárias do projeto, Lilah promove agora uma ação ambiciosa: está treinando meninas para a Olimpíada Brasileira de Matemática.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Nanossatélite ITASAT é lançado da Base de Vandenberg na Califórnia (EUA)

AEB
3 de dezembro de 2018


Foto: Spaceflyght Now

O nanossatélite ITASAT foi lançado nesta segunda-feira (03.12), às 16h32 (horário de Brasília), pela missão SmallSat Express (SSO-A), da Base Aérea de Vandenberg, na Califórnia (EUA), pelo lançador Falcon 9 da SpaceX. O lançador decolou com 64 pequenos satélites, sendo 49 cubesats  e 15 microsats, representando 34 clientes de 17 nações. O cubesat ITASAT em formato 6U é fruto de uma parceria entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) – financiadora do projeto e do lançamento – e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

O projeto ITASAT tem como principal objetivo fomentar a capacitação de recursos humanos para atuar na indústria e nos institutos de pesquisas do setor aeroespacial brasileiro.

Para o diretor de Satélite, Aplicações e Desenvolvimento da AEB, Carlos Gurgel, o lançamento do ITASAT na tarde desta segunda-feira entra para a história, pois foi realizado pelo veículo Falcon 9, cujo primeiro estágio foi utilizado três vezes, tendo pousado numa balsa com sucesso minutos após o início da missão. Provavelmente este mesmo estágio será utilizado pela quarta vez, considerando que a empresa pretende usá-lo por até dez vezes”, explicou Gurgel.

Com dimensões de 10x20x30 centímetros, peso de 5,2 kg, o ITASAT levará a bordo cargas úteis, como um transponder de coleta de dados desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de Natal (INPE/CRN), um receptor GPS desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceira com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), uma câmera comercial com resolução de 80m por pixel no espectro visível e um experimento de comunicação com a comunidade de radioamadores, que permite o armazenamento e posterior envio de mensagens.

O ITASAT é o primeiro satélite brasileiro a levar a bordo o software de controle de atitude totalmente desenvolvido no Brasil. A experiência adquirida na construção do ITASAT será utilizada no desenvolvimento de uma plataforma de cubesat para aplicação em projetos futuros. O ITA foi o responsável pelo desenvolvimento da plataforma, bem como da integração e testes das cargas pagas.

Para o engenheiro mecânico e estudante de pós-graduação do ITA, Breno Crusioli, “a oportunidade foi bastante desafiadora principalmente pela possibilidade de associar a teoria à prática do conhecimento. Tenho planos de dar continuidade aos meus estudos no projeto ITASAT”, afirmou o estudante da área de CAD em 3D, responsável por desenhar, projetar e documentar o ITASAT. “No início de 2017, quando comecei meu mestrado minha meta era trabalhar com análise térmica do ITASAT, utilizando software de engenharia”, explicou.
Testes funcionais

Os testes funcionais do cubsat universitário aconteceram na Holanda, em maio de 2016, na Innovative Solutions In Space (ISIS), empresa spin off da Universidade de Tecnologia de Delft, uma das mais especializadas em nanossatélites do mundo.

O ITASAT passou por ensaio de vibração nos três eixos, bakeout (submissão do satélite a altas temperaturas a fim de retirar substâncias voláteis), ensaio de ciclo térmico (variação de baixas para altas temperaturas, -20° a 60°C), e ensaio de propriedade de massa, além dos demais ensaios funcionais que já eram feitos na empresa.

Os pesquisadores do INPE, Marco Antonio Chamon e Maria de Fátima Mattiello Franciso foram os revisores indicados pela AEB para acompanhar, na Holanda, o andamento do projeto. “O desempenho do cubesat durante os testes foi satisfatório, pois a equipe do ITASAT é bem preparada nos projetos de engenharia de sistemas”, ressaltaram os pesquisadores.

Trajetória

A proposta de desenvolver e operar um satélite universitário começou em meados de 2005. Até 2008, uma primeira fase do projeto ITASAT buscou consolidar a formação de recursos humanos e o envolvimento de estudantes de graduação e pós-graduação. A partir de 2009, as ações se voltaram para o desenvolvimento do satélite, com a realização de revisões periódicas formais, supervisionadas por especialistas do Brasil e do exterior, com experiência no desenvolvimento de microssatélites.

Em 2013, o cubesat passou por readequações estratégicas na filosofia de desenvolvimento e na estrutura do equipamento. Mais leve e moderno, o nanossatélite recebeu módulos compatíveis com diversas plataformas e com cinco experimentos científicos.

O professor Luís Loures do ITA, responsável pela gerência do projeto ITASAT explicou que os pequenos satélites proporcionam diversas vantagens se comparados a projetos de satélites convencionais. Além de permitir que projetos espaciais sejam trabalhados em ambientes universitários, o baixo custo, assim como o menor prazo de desenvolvimento e maior facilidade para lançamento são os principais benefícios de se trabalhar com cubesats.

Outro aspecto destacado por Loures é o fato de os nanossatélites serem boas alternativas para testes de novas tecnologias e novos conceitos no espaço, sendo os pequenos satélites considerados ferramentas que aceleram o acesso ao espaço.

Relações Exteriores debate acordo Brasil-EUA sobre uso da base em Alcântara

Câmara de Notícias
3 de dezembro de 2018

BBC/divulgação

O acordo de salvaguarda entre o Brasil e os Estados Unidos que permite o uso da base de lançamento de foguetes em Alcântara, no Maranhão, é tema de audiência pública a ser realizada nesta quarta-feira (5) pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Confirmaram presença no debate o brigadeiro-do-ar André Luiz Fonseca e Silva, representando o Ministério da Defesa; e o embaixador Alessandro Candeas, diretor do Departamento de Assuntos de Defesa e Segurança, representando o Ministério das Relações Exteriores. Também foi convidado representante do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

A audiência foi requerida pelo deputado Pedro Fernandes (PTB-MA). Segundo ele, depois de 16 anos os países voltaram a retomar as negociações para um acordo de salvaguarda. “É de suma importância debatermos o assunto, pois, o trato entre os países estimulará o programa espacial brasileiro, visto que o insumo tecnológico para o desenvolvimento de satélites e foguetes provém dos EUA”, disse.

Hora e local
A audiência será às 10 horas, no plenário 3.
Da Redação - RS

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Pesquisadores do INPE indicam potencial de vida em nossa galáxia

INPE
28 novembro de 2018

Planeta rochoso geologicamente ativo: manto convectivo, tectonismo e ciclo de carbono (ilustração fora de escala). Arte: Melissa de Andrade Nunes (IAG/USP)
As condições para o surgimento da vida em um planeta são diversas. A órbita precisa estar na zona habitável do sistema planetário, é necessário ter atmosfera em função da gravidade superficial (ou massa e tamanho) e ser geologicamente ativo. Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e colaboradores verificaram que pode haver reserva suficiente de energia interna para potenciais planetas rochosos no disco da Galáxia, indicada pela abundância do elemento radioativo tório em estrelas gêmeas do Sol.

Os pesquisadores analisaram cuidadosamente uma amostra de 53 gêmeas solares, cujos parâmetros superficiais, massas e idades foram determinados homogeneamente de modo bastante preciso. Espectros ópticos de alta qualidade e resolução em comprimento de onda foram coletados utilizando um espectrógrafo ultraestável, chamado HARPS, que está instalado no telescópio de 3,6m do European Southern Observatory (ESO), no Chile.

Os resultados estão no artigo "Thorium in solar twins: implications for habitability in rocky planets", recentemente publicado no Monthly Notices of Royal Astronomical Society (MNRAS).

O estudo mostra que potenciais planetas rochosos ao redor de gêmeas solares apresentam altas probabilidades de terem tectonismo, aumentando a chance da habitabilidade em planetas de qualquer massa. A pesquisa sugere condições geológicas favoráveis para o surgimento e manutenção da vida em exoplanetas rochosos, e que a vida poderia estar espalhada por todo o disco da Galáxia e ter se originado em qualquer época de sua evolução.

"Primeiro temos que lembrar que a Terra é um planeta geologicamente ativo, com terremotos e vulcões induzidos pelo tectonismo de placas continentais, que proporciona o ciclo do carbono, atuando como um termostato da atmosfera (efeito estufa) e estando intimamente ligado ao surgimento e evolução da vida na superfície terrestre", explica André Milone, pesquisador da Divisão de Astrofísica do INPE que orienta Rafael Botelho, primeiro autor do estudo.

A tectônica de placas é causada pela convecção do material do manto, cuja energia advém tanto do decaimento radioativo de isótopos instáveis do tório, urânio e potássio, assim como do resfriamento secular de todas as camadas internas da Terra. Portanto, as concentrações iniciais destes elementos num planeta rochoso contribuem de modo indireto para a habitabilidade em sua superfície, especialmente devido aos seus tempos longos de decaimento (escalas de bilhões de anos).

Avanço científico

Até o momento, este é o mais amplo estudo da abundância do tório em gêmeas solares. Antes, pesquisadores da The Ohio State University, nos Estados Unidos, também utilizaram dados do HARPS, porém, utilizaram uma amostra restrita de apenas 13 estrelas similares ao Sol.

O doutorando em Astrofísica do INPE Rafael Botelho destaca que outra diferença com trabalhos anteriores é que a abundância do isótopo 232-Th medida em cada estrela foi corrigida do efeito de seu decaimento, que o transmuta para 228-Rd (elemento rádio) emitindo uma partícula alfa energética e fazendo diminuir sua concentração ao longo do tempo. A finalidade foi derivar a abundância inicial do tório em cada estrela estudada, a qual representaria àquela do material de onde a estrela se formou. A medição da abundância de 232-Th (principal isótopo do tório com fração de 99,98% na Terra por exemplo) foi realizada a partir da análise cuidadosa de uma linha espectral estelar em absorção(7) do Th II (tório uma vez ionizado).

"Nosso trabalho mostrou que há uma grande quantidade de energia disponível devido ao decaimento de tório para manter a convecção do manto e o tectonismo em potenciais planetas rochosos que possam existir em torno de gêmeas solares. O mais empolgante é que parece que o tório também é abundante em gêmeas solares velhas, significando que o disco da Galáxia pode estar repleto de vida, tanto no espaço quanto no tempo!", diz Botelho.

A abundância inicial de tório foi comparada com aquelas do ferro, silício e mais dois elementos pesados (Nd e Eu). Silício, especificamente, é um indicador da espessura e massa do manto convectivo em planetas rochosos. As medidas indicaram que a razão Th/Si em gêmeas do Sol aumenta com o tempo, tendo sido maior ou, no mínimo, igual ao valor solar desde a formação do disco da Galáxia.

Glossário

Gêmeas solares: estrelas com temperatura, gravidade e composição química superficiais próximos dos valores do Sol.
Zona habitável (em um sistema planetário): região em torno da estrela definida por um intervalo de distâncias adequadas para água existir sob a forma líquida na superfície planetária.

Espectro óptico: parte visível do espectro eletromagnético (visível para visão humana).
Espectrógrafo: instrumento científico acoplado a um telescópio para registrar e analisar o espectro eletromagnético "de cores" dos corpos celestes, desde os comprimentos de onda mais curtos (ultravioleta ou violeta) aos mais longos (infravermelho).

Ciclo (geológico) do carbono: processo de circulação, associação e reuso de átomos de carbono, através do manto, crosta, atmosfera e oceanos de um planeta terrestre (Terra como protótipo). O ciclo biológico do carbono considera a contribuição dos seres vivos.

Decaimento radioativo: processo pelo qual um núcleo atômico instável emite energia (em termos de massa no seu referencial de repouso) transmutando-se em outra espécie atômica, a qual pode ser sob a forma de uma partícula alfa, uma partícula beta mais um neutrino (ou somente um neutrino) no caso de captura de elétron, ou um fóton gama (ou elétron) no caso de conversão interna.

Linha espectral estelar em absorção: diminuição do fluxo eletromagnético em um intervalo de comprimento de onda devido à presença de um átomo ou molécula. O decréscimo é proporcional à abundância numérica do elemento/molécula absorvedor considerando as condições de temperatura, pressão e densidade de massa ao longo da atmosfera estelar.

CLA realiza o primeiro lançamento previsto para a Operação MUTITI

FAB
30 de novembro de 2018
Tenente João Elias - Revisão: Capitão Landenberger

Crédito: Cabo Armando

O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) realizou, na última terça-feira (27), o lançamento de um Foguete de Treinamento Intermediário (FTI), como parte das atividades previstas para a Operação MUTITI, que tem por objetivo lançar e rastrear o Veículo de Sondagem VS-30 V14, com a carga útil PSR-01.

O FTI foi lançado às 14h30 pelo horário local, com o veículo atingindo 52 quilômetros de altitude máxima (apogeu), em 1min45s de voo. Se considerado em linha reta, o foguete percorreu 82 quilômetros de distância até a área de impacto, junto ao litoral maranhense. Ao todo, o FTI voou por 3min36s até atingir o local previsto no Oceano Atlântico.

“O lançamento realizado confirmou a plena disponibilidade dos meios de solo do Centro e o alto grau de profissionalismo de todas as equipes envolvidas com a Operação MUTITI. Esperamos, com o resultado atingido, realizar, mais uma vez, com sucesso, o lançamento do VS-30, a partir da próxima semana”, afirmou o Diretor do CLA, Brigadeiro Engenheiro Luciano Valentim Rechiuti.

O FTI é um veículo nacional fabricado pela Avibras voltado ao treinamento operacional e ao aprimoramento da capacidade instalada do efetivo do Centro de Lançamento de Alcântara. Possui 5,5 metros de comprimento e meia tonelada de massa, utilizando propelente sólido. É lançado a partir de trilhos, sendo estabilizado aerodinamicamente por quatro empenas retas fixas. O veículo é composto de: motor-foguete, terminação de voo e carga-útil (módulo para experimentos).

Este foi o 493º veículo lançado do CLA em um total de 104 operações já realizadas em Alcântara, tendo sido a 15ª vez de um FTI no CLA. Além da equipe do CLA e do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), participaram da operação de lançamento o Esquadrão Harpia (7º/8º GAV), para eventual evacuação aeromédica (EVAM), e o Esquadrão Netuno (3°/7º GAV), para verificação de área marítima momentos antes do lançamento. A atividade também contou com o apoio da Marinha do Brasil (MB) e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), os quais atuaram na interdição do tráfego marítimo e aéreo na região, respectivamente.

Operação MUTITI

A operação dá continuidade ao Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), em coordenação com a Agência Espacial Brasileira (AEB), sendo conduzida pelo IAE, subordinado ao DCTA. Além de lançar e rastrear o VS-30, a Operação MUTITI visa a apoiar projetos de diferentes organizações de ensino, pesquisa e desenvolvimento na realização de experimentos científicos e tecnológicos, em voos suborbitais. Ainda, favorece a manutenção da operacionalidade, tanto do CLA quanto do CLBI, proporcionando treinamento às diversas equipes envolvidas, e o teste dos diferentes sistemas para operações futuras. Quanto ao CLBI, este será utilizado como estação remota, tanto para o rastreio do veículo quanto para a coleta e transmissão de dados da carga útil PSR- 01.

O lançamento do VS-30, com a carga útil PSR- 01, deverá ocorrer a partir da próxima quarta-feira (05/12), sendo o 14º de sua série fabricado para ser testado em voo. O VS-30 já foi lançado outras treze vezes, todas com pleno sucesso, das quais as duas primeiras ocorreram no CLA, e a última na Suécia, em 2016.

A carga útil, denominada PRS-01, contará com cinco experimentos brasileiros, complexos e multidisciplinares, sendo dois do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), um do Instituto de Estudos Avançados (IEAV) e dois do IAE.

“O lançamento do FTI durante a Operação, bem como o sucesso atingido nesse procedimento, demonstram e validam a plena operacionalidade dos recursos humanos e materiais existentes no CLA, possibilitando a execução de operações mais complexas, como o lançamento do VS-30, a ser executado na próxima semana. Os resultados de tal campanha extrapolam a esfera operacional dos centros, gerando, ainda, dados técnicos e científicos que realimentarão pesquisas e produtos com impacto nos campos acadêmico, econômico e financeiro”, afirmou o Coordenador-Geral da Operação MUTITI, Coronel Lester de Abreu Faria.